Fé Invertida — Quando a Convicção Serve ao Medo

ARTIGO DE OPINIÃO / PSICOLOGIA & NEUROPSICOLOGIA
Por Francisco Araujo — Psicólogo e Neuropsicólogo | CRP 06/117441
Falamos muito sobre fé como uma força positiva — a capacidade humana de sustentar esperança diante do desconhecido, de continuar mesmo quando as certezas faltam. E ela é, de fato, um recurso psicológico poderoso.
Mas existe uma face menos visível dessa mesma força. Uma que raramente reconhecemos em nós mesmos — justamente porque ela se disfarça de bom senso ou de experiência de vida.
Chamo de fé invertida.
O que é a fé invertida?
A fé invertida acontece quando depositamos em nossos pensamentos negativos a mesma força — a mesma fé — que poderíamos colocar em possibilidades reais e positivas. É quando o medo deixa de ser uma dúvida e passa a funcionar como uma certeza.
Ela aparece em frases que muitos de nós já dissemos ou pensamos:
“Vai dar errado.”
“Nada vai mudar.”
“O passado vai se repetir.”
“Nada dá certo para mim.”
Observe: Essas afirmações não são fatos. São interpretações. Mas quando as repetimos com suficiente convicção — especialmente em momentos de sofrimento ou vulnerabilidade — elas começam a funcionar como verdades absolutas. E é exatamente aí que a fé, sem que você note, está sendo colocada a serviço do medo.
Por que isso acontece?
Do ponto de vista psicológico, a fé invertida não é fraqueza nem falta de esforço. Ela é, com frequência, uma resposta aprendida.
Pesquisas apontam (Young; Klosko; Weishaar, 2003) que, quando vivemos experiências repetidas de frustração, perda ou decepção — especialmente nas fases iniciais da formação de nossa personalidade —, o cérebro começa a antecipar o pior como forma de se proteger. Essa é uma tentativa, muitas vezes inconsciente, de evitar a dor da surpresa negativa. Um mecanismo de proteção que, carregado para a vida adulta, encontramos com frequência na prática clínica.
O problema é que essa estratégia tem um custo alto. Quando tratamos o medo como certeza — dizendo a nós mesmos 'Não vejo saída' ou 'Isso nunca vai mudar' — esse pensamento começa a governar nossas escolhas. E assim deixamos de enxergar que sim, a vida pode ser diferente.
Como reconhecer a fé invertida em nós mesmos?
Algumas perguntas podem ajudar nessa reflexão:
Quando penso no futuro, qual é o primeiro pensamento que surge — uma possibilidade ou uma ameaça?
Quando algo começa a dar certo, consigo sustentá-lo — ou imediatamente busco razões para desconfiar?
Quando alguém me oferece uma oportunidade, minha primeira resposta interna é abertura ou antecipação do fracasso?
Não se trata de buscar respostas certas ou erradas. Trata-se de observar, com honestidade e sem julgamento, o que acontece dentro de nós.
Fé e autoconhecimento — um caminho possível
A fé que liberta não é aquela que ignora os riscos ou nega a realidade. Ao contrário: é o aprendizado consciente de que podemos parar de dar a última palavra ao medo e voltar nossa atenção para novas possibilidades.
E o autoconhecimento tem um papel fundamental nesse processo — porque é ele que nos permite perceber se estamos deslocando a nossa fé para ideias negativas, em vez de colocá-la a serviço do que realmente queremos e precisamos.
No entanto, reconhecer a fé invertida não é simples. Ela costuma estar enraizada em histórias longas, em padrões construídos ao longo de anos.
E o primeiro passo para mudar isso é perceber que um pensamento negativo como 'Isso não vai mudar nunca' não é uma certeza absoluta, mas apenas uma crença. E perceber isso já é, por si só, uma abertura importante.
E você? Tem colocado sua fé nas possibilidades — ou nos seus medos?
Sobre o Autor & Contato
Francisco Araujo é psicólogo clínico e neuropsicólogo com 10 anos de experiência. Atende adultos, adolescentes e casais, presencialmente no Tatuapé em São Paulo e também na modalidade online.
Endereço Presencial: Rua Martins Pena, 225, Tatuapé, São Paulo - SP
Atendimento Online: Disponível para todo o Brasil e exterior
CRP: 06/117441
Referência Bibliográfica
YOUNG, Jeffrey E.; KLOSKO, Janet S.; WEISHAAR, Marjorie E. A terapia de esquemas: guia de práticas clínicas. Porto Alegre: Artmed, 2003.



Comentários