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Você diz que quer mudar… então por que continua onde está?

  • Foto do escritor: Francisco Araujo
    Francisco Araujo
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

Entenda por que é tão difícil mudar, mesmo quando estamos sofrendo.


“A mudança acontece quando a dor de permanecer na mesma situação se torna maior do que a dor da mudança.”


Essa frase, bastante difundida, aponta para um aspecto central da experiência humana: a relação entre sofrimento e transformação.


Muitas pessoas se perguntam:por que não consigo mudar, mesmo estando sofrendo?Ou ainda:por que continuo repetindo padrões que me fazem mal?


É comum ouvirmos — e também dizermos — frases como:“Eu estou sofrendo.”“Eu preciso mudar.”“Eu não aguento mais essa situação.”

A princípio, essas afirmações parecem claras e mobilizadoras.Mas, na prática, algo curioso acontece:

Apesar desse discurso consciente, muitas vezes permanecemos exatamente onde estamos.

 

A contradição silenciosa


Existe uma diferença importante — e frequentemente ignorada — entre aquilo que dizemos querer e aquilo que, de fato, sustentamos com nossas escolhas.

Conscientemente, queremos sair do sofrimento.Mas, em um nível mais profundo, podemos estar esperando que essa mudança aconteça de forma fácil, rápida — quase sem custo emocional.


Esse tipo de conflito interno já era apontado por Sigmund Freud (1923), ao descrever dinâmicas psíquicas que operam fora da consciência e influenciam nossos comportamentos.

Esperamos por um “jeitinho”. Uma solução simples. Algo que resolva sem exigir enfrentamento.

E como essa solução raramente existe…acabamos permanecendo.

 

 Por que temos dificuldade de mudar?


A dificuldade de mudar nem sempre está na falta de força, disciplina ou capacidade.

Pelo contrário.

Pessoas que dizem não conseguir mudar, frequentemente:

  • cuidam da família

  • trabalham intensamente

  • resolvem inúmeros problemas no dia a dia

Ou seja, energia psíquica existe.


O que está em jogo não é a ausência de recursos, mas a forma como eles estão sendo direcionados — ou evitados.


Segundo Carl Rogers (1961), esse desalinhamento pode ser compreendido como um estado de incongruência entre a experiência vivida e a percepção consciente do self.


Por que continuamos em situações que nos fazem mal?

Essa é uma das perguntas mais frequentes na clínica:

👉por que continuamos em situações que nos fazem sofrer?


Mudar implica ruptura.

Mesmo quando a situação atual é dolorosa, ela ainda é conhecida.Possui uma lógica, um funcionamento, uma previsibilidade.


O novo, por outro lado:

  • gera incerteza

  • exige reposicionamento

  • mobiliza inseguranças


Diante disso, o sofrimento conhecido pode parecer, paradoxalmente, mais “seguro” do que o desconhecido.


Esse padrão também se relaciona com o que Daniel Kahneman (2011) descreve como a tendência humana de manter padrões familiares, mesmo quando não são ideais.

Por que repetimos os mesmos padrões?


Outra questão importante:

👉 por que repetimos padrões que nos fazem mal?

É nesse contexto que surgem justificativas aparentemente coerentes:

“Agora não é o melhor momento.”“Isso vai dar muito trabalho.”“Depois eu vejo isso com mais calma.”


Essas frases não são, necessariamente, falsas.Mas muitas vezes funcionam como formas sofisticadas de evitar o enfrentamento.


Na perspectiva cognitiva, Aaron Beck (1976) mostra como crenças e pensamentos automáticos podem sustentar padrões disfuncionais.

Elas organizam o discurso — enquanto mantêm o comportamento inalterado.

A adaptação ao sofrimento


Assim como nos adaptamos ao prazer, também nos adaptamos ao sofrimento.

Com o tempo, aquilo que antes incomodava intensamente passa a ser tolerado, incorporado e, em alguns casos, até defendido.


Criamos explicações.Normalizamos padrões.E seguimos.

A ponto de algo profundamente paradoxal acontecer:

passamos a sustentar aquilo que dizemos querer abandonar.


Esse fenômeno pode ser relacionado à evitação experiencial descrita por Hayes (1999), na Terapia de Aceitação e Compromisso.

 

Afinal, o que realmente queremos?


Essa é, talvez, a pergunta mais importante.

Nem sempre o que dizemos querer corresponde ao que, de fato, estamos dispostos a sustentar.


E isso não deve ser entendido como falha moral — mas como expressão da complexidade do funcionamento psíquico.


Reconhecer essa contradição é um passo fundamental.

Porque só a partir dela é possível sair de um lugar automático e começar, de fato, a construir mudança.

 

Consideração final


Muitas vezes nos adaptamos ao sofrimento e chegamos até a defendê-lo.

No entanto, temos a capacidade de questionar esse ciclo.

Talvez a mudança real não esteja em soluções rápidas, mas na disposição de sustentar o desconforto necessário para nos transformar.


Sair do sofrimento não é fácil… mas é possível.



Referências:

FREUD, Sigmund. O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago, 1923.Disponível em: https://www.scribd.com/document/384243123/Freud-O-Ego-e-o-IdAcesso em: 19 abr. 2026.

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1961.Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4145627/mod_resource/content/1/Rogers-Tornar-se-pessoa.pdfAcesso em: 19 abr. 2026.

BECK, Aaron T. Cognitive therapy and the emotional disorders. New York: International Universities Press, 1976.Disponível em: https://archive.org/details/cognitivetherapy00beckAcesso em: 19 abr. 2026.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4505702/mod_resource/content/1/Rapido_e_devagar_Daniel_Kahneman.pdfAcesso em: 19 abr. 2026.

HAYES, Steven C.; STROSAHL, Kirk; WILSON, Kelly. Acceptance and Commitment Therapy. New York: Guilford Press, 1999.Disponível em: https://contextualscience.org/files/ACT_1999.pdfAcesso em: 19 abr. 2026.



 
 
 

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